O cirurgião, o oncologista e a educação

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O psicólogo K. Anders Ericsson é provavelmente o pesquisador que mais se dedicou a entender o que leva pessoas a se tornarem especialistas nas mais variadas áreas, levando em consideração o aprendizado. É dele o famoso cálculo das 10 mil horas, que afirma, resumidamente, o seguinte:

pessoas excepcionais em suas áreas praticaram cerca de 10 mil horas para atingir o estágio em que se encontram.

No entanto, esse tipo de resumo pode levar à ideia errada de que a prática, por si só, realmente leva à perfeição. O trabalho do próprio Ericsson mostrou que isso não é verdade, ao analisar, entre outras especialidades, dois tipos de médicos: o oncologista e o cirurgião.

Quantidade e qualidade

O que a pesquisa de Ericsson descobriu é que os cirurgiões tendem a continuar evoluindo com o tempo, enquanto os oncologistas costumam estagnar depois de alguns anos. Um cirurgião com 20 anos de experiência é, provavelmente, muito mais confiável do que um que possui 10 anos de prática, enquanto a diferença entre dois oncologistas com 10 e 20 anos de experiência é pouco relevante.

Por que isso acontece? A explicação é que a quantidade de tempo dispendida é menos importante do que o modo como esse tempo é usado. Os cirurgiões têm um retorno imediato de seu trabalho. Após poucas horas, normalmente, conseguem ver se uma operação foi bem-sucedida ou não, e podem usar esse conhecimento já na próxima cirurgia. Os oncologistas, em contrapartida, não costumam ter acesso a esse tipo de feedback: após um tratamento, espera-se que o paciente tenha uma melhora, mas ela não ocorre imediatamente, e sim em um período de meses ou anos. Além disso, há muitas variáveis que interferem na condição do paciente, como a alimentação, os exercícios e até mesmo a disposição psicológica da pessoa. Assim, é muito mais difícil saber qual foi o resultado do trabalho específico do médico.

O feedback leva à perfeição

O que a pesquisa de Ericsson mostrou, e que tem muita relação com as escolas, é que, para evoluir, uma pessoa precisa não apenas praticar, mas receber retornos rápidos e constantes sobre sua prática. Portanto, as provas escolares podem ter uma função muito mais relevante do que a simples classificação dos estudantes em “aprovados” e “reprovados” (já falamos sobre isso em outro post).

Aplicar provas menores, mais constantes e com resultado imediato é um caminho para garantir que os alunos aproveitem bem o seu tempo de estudo, observando os erros e aplicando os novos conhecimentos logo em seguida. Por outro lado, concentrar todo o conteúdo em uma grande prova a cada semestre, embora seja uma maneira de simular os vestibulares, não funciona tão bem como método para incentivar a evolução do conhecimento dos estudantes. Logo, esses simulados devem coexistir com avaliações mais curtas e que gerem um retorno mais rápido. Em um próximo post, daremos exemplos de como essas avaliações podem ser elaboradas. Até breve!

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