O paradoxo da autonomia: até que ponto devemos deixar os alunos fazendo o que quiserem

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No início do filme Troia, há um momento em que Aquiles (interpretado por Brad Pitt) está praticando luta com seu primo Pátroclo. A certa altura, Aquiles troca sua espada da mão direita para a esquerda, o que leva Pátroclo a estranhar e dizer: “você me falou para nunca trocar a espada de mão”. Então, Aquiles responde: “quando você souber usar uma espada, não vai precisar seguir minhas ordens”.

Esse breve diálogo resume uma situação muito importante na educação, que eu chamo de “paradoxo da autonomia”: para que os estudantes tenham um dia a capacidade de agir de maneira autônoma, é importante que eles sejam cuidadosamente guiados por um tempo. Ou seja, dar autonomia muito cedo acaba por diminuir a autonomia.

O propósito da educação

É válido dizer que a educação do século XXI tem como principal propósito formar pessoas autônomas, capazes de tomar decisões conscientes a respeito de suas ações. No entanto, muitos professores entendem esse propósito de maneira equivocada: ouve-se muito o discurso de que “é importante deixar os alunos tomarem suas próprias decisões”. Isso é correto, mas o problema é supervalorizar essas decisões em um momento no qual os estudantes ainda não têm o conhecimento e as habilidades necessárias para realmente decidir com consciência.

Vamos supor, por exemplo, que alunos de sexto ano tenham a tarefa de escrever um poema. Se o professor não passar nenhuma orientação, é provável que os poemas produzidos tenham rimas pobres e não se preocupem muito com métrica e ritmo. Alguém vai argumentar que está tudo bem, porque os alunos estão escrevendo da forma que escolheram e isso deve ser valorizado. Porém, eles realmente conseguiram fazer uma escolha? Eles avaliaram as várias possibilidades de escrever um poema e optaram por uma delas? O mais provável é que não: eles simplesmente escreveram da única maneira que conheciam.

Seria mais útil, portanto, que o professor tivesse oferecido orientações e estabelecido regras para a elaboração dos poemas (por exemplo, um esquema de rimas específico ou a obrigatoriedade de usar versos de sete sílabas). Em uma próxima atividade, as regras seriam diferentes, mas continuariam existindo. Ao contrário do que pode parecer, ao fazer isso, o educador não está restringindo a liberdade dos estudantes, mas está treinando seus alunos, desenvolvendo neles habilidades para que, no futuro, eles possam tomar suas decisões de maneira consciente.

Autonomia futura versus autonomia presente

A verdadeira autonomia não consiste em fazer tudo o que se quer, mas em ser capaz de decidir conscientemente sobre as próprias ações. Por isso, uma restrição à autonomia nos primeiros anos é uma ferramenta necessária para que os estudantes entrem em contato com formas de pensar e agir que eles não desenvolveriam espontaneamente. E é isso que permite o desenvolvimento da autonomia futura.

Os bons educadores não devem, portanto, se sentir culpados por estabelecer regras para seus alunos, e menos ainda por cobrar o cumprimento das normas estabelecidas em provas e trabalhos. Como diria Aquiles, um dia os alunos vão poder descumprir dessas regras. Mas esse dia não está na primeira semana de aula do sexto ano.

Em postagens futuras, falaremos mais sobre atividades que podem desenvolver a autonomia dos estudantes.

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