Um problema que persiste ao longo das décadas
Por que a Matemática continua sendo, ao longo de tantos anos, um dos maiores desafios da educação brasileira? Por que, mesmo depois de tantos programas, formações e novas metodologias, os resultados em avaliações nacionais e internacionais permanecem consistentemente baixos?
Essas não são perguntas retóricas. São questões que exigem reflexão profunda sobre o que estamos fazendo nas escolas, sobre como ensinamos e, principalmente, sobre o que esse cenário revela a respeito da forma como estudantes brasileiros se relacionam com o pensamento matemático.
Este artigo apresenta um diagnóstico baseado em dados oficiais, explora as raízes estruturais e emocionais do problema e aponta caminhos concretos que gestores e professores podem trilhar para mudar essa realidade.
O retrato atual: números que exigem atenção
Para fundamentar esta reflexão, é essencial começar pelos dados. E eles são, de fato, alarmantes.
Segundo estudo publicado em abril de 2025 pela organização Todos Pela Educação, com base nos dados do Saeb de 2023, apenas 5,2% dos alunos do Ensino Médio da rede pública alcançaram aprendizagem adequada em Matemática.
De cada 100 estudantes que terminam o Ensino Médio, apenas cinco dominam o que deveriam saber de matemática nessa etapa da vida escolar.
E o cenário fica ainda mais preocupante: 59% dos alunos estão abaixo do nível básico de aprendizagem. Isso significa que mais da metade dos jovens brasileiros não consegue resolver problemas simples de matemática que envolvem raciocínio lógico, interpretação de dados ou operações elementares, como soma e subtração.
Consulte o estudo completo: Aprendizagem na Educação Básica: situação brasileira no pós-pandemia (Todos Pela Educação, 2025)
Se considerarmos o PISA, avaliação internacional que compara estudantes de todo o mundo, o Brasil segue significativamente abaixo das médias dos países da OCDE em competência matemática. Na edição de 2022, o país ocupou a 65ª posição entre 81 países avaliados, ficando atrás de países como Colômbia e Costa Rica.
Enquanto estudantes de Singapura, China e Coreia do Sul resolvem problemas matemáticos complexos com desenvoltura, estudantes brasileiros ainda lutam para compreender o significado de uma fração simples ou calcular uma porcentagem básica.
E, se você acha que a escola privada brasileira está imune a esses resultados preocupantes, seu pensamento está equivocado. Um estudo publicado pelo Inep, também com base no PISA 2022, mostra que alunos de escolas particulares brasileiras, apesar de terem resultados superiores aos da rede pública, ainda assim obtiveram uma média de apenas 456 pontos, ficando abaixo da média de 472 pontos dos países da OCDE.
As raízes do problema: além do conteúdo
Mas afinal, quais são as raízes desse problema crônico de aprendizado em Matemática no Brasil? Por que nossos estudantes se desenvolvem tão pouco nessa área?
O relatório mais recente do PISA, publicado junto aos resultados, aponta algo fundamental: o problema não é apenas de conteúdo, mas também de ordem emocional.
O Brasil está entre os piores desempenhos do mundo em matemática, mas além disso, lidera um ranking ainda mais alarmante: o da ansiedade em relação à matemática. De acordo com o relatório, a maioria dos estudantes brasileiros relata sentir medo, tensão e até bloqueio ao enfrentar problemas matemáticos.
E essa ansiedade cobra um preço alto: alunos com altos níveis de ansiedade têm desempenho até um ano letivo pior do que aqueles que se sentem confiantes. Segundo dados do PISA 2022, 65,1% dos estudantes brasileiros se sentem ansiosos com a possibilidade de reprovar em matemática (média da OCDE: 54,8%), e 74,2% se preocupam em ter dificuldade nas aulas da disciplina.
Leia mais: Ansiedade com matemática cresce entre alunos brasileiros, aponta Pisa (CNN Brasil)
Esse medo não surge do nada. Nossos jovens crescem ouvindo que “Matemática é difícil” ou que “não é para todo mundo”. E o resultado é devastador: baixa autoeficácia, baixa autoconfiança e uma sensação permanente de que “não adianta tentar”.
O PISA alerta que essa crença de incapacidade é uma das principais barreiras para o aprendizado da matemática no Brasil. E ela se alimenta e cresce diante de práticas pedagógicas baseadas em repetição e memorização, em vez de significado e descoberta.
Um artigo intitulado “Dificuldades de Aprendizagem em Matemática: o que dizem as pesquisas recentes”, publicado na revista Educação Matemática em Revista, ajuda a entender mais profundamente a origem do problema. Ele mostra que essas emoções negativas dos alunos se alimentam diante de práticas que enfatizam o “fazer conta” sem ensinar a pensar matematicamente.
As dificuldades começam cedo, nos conteúdos mais básicos, e se acumulam ao longo dos anos. Elas são reforçadas por problemas de leitura, falta de apoio familiar e ensino descontextualizado. O aluno aprende a fazer contas, mas não aprende a aplicar o pensamento matemático à vida real.
E quando ele erra, ou acredita que vai errar, a ansiedade toma o lugar da curiosidade.
É um círculo vicioso: quanto mais medo o aluno sente, menos ele aprende; e quanto menos aprende, mais medo ele sente.
Onde podemos agir: intencionalidade pedagógica
Diante desse cenário preocupante, é natural nos perguntarmos: onde estamos errando? O que está faltando em nossas escolas?
Será que é mais formação docente? Mais tecnologia? Mais investimento?
Tudo isso é importante. Mas talvez o que falte mesmo seja intencionalidade pedagógica clara e consistente. Ensinar Matemática não é fazer o aluno repetir fórmulas, mas estimulá-lo a pensar, a estabelecer relações, a criar significado.
Quando nossos alunos entenderem, através de nós, que a Matemática é uma ferramenta para compreender o mundo e não apenas para passar de ano, talvez os resultados comecem a mudar.
Caminhos concretos para a transformação
Para que esses dados se revertam, gestores, coordenadores e professores precisam dar o primeiro passo: repensar o sentido de ensinar Matemática na escola. E isso significa formar para além da técnica.
O Instituto Unibanco publicou um boletim com cases de escolas que melhoraram o aprendizado de matemática dos seus alunos e viram a motivação crescer. Em geral, essas escolas adotaram:
- metodologias ativas
- laboratórios de matemática
- contextos reais para a sala de aula.
Conheça as estratégias: Estratégias para melhorar o ensino de Matemática (Instituto Unibanco)
Aqui estão alguns caminhos práticos que podem ser trilhados:
- Promova formação continuada focada no raciocínio lógico
Gestores e coordenadores: invistam em formação continuada de professores de matemática, mas com foco no desenvolvimento do raciocínio lógico e na resolução de problemas com contextos reais, não apenas em domínio técnico de conteúdos.
- Priorize significado sobre o procedimento
Professores: aproximem a matemática do cotidiano dos alunos, utilizando problemas que façam sentido na vida real, em vez de exercícios exclusivamente formais e descontextualizados. Isso ajuda a converter o “não entendo” em “eu vejo utilidade”.
- Implemente metodologias ativas e recursos lúdicos
Jogos, desafios, competições e apoio no contraturno aumentam o engajamento e a autoestima dos alunos. Práticas que tornam o aprendizado mais interativo e menos intimidador têm mostrado resultados consistentes em escolas de diferentes regiões do país.
- Combata a crença de que “matemática não é para mim”
Trabalhe ativamente para desconstruir narrativas negativas sobre a disciplina. Celebre pequenos avanços, mostre a diversidade de aplicações da matemática e conecte o conteúdo aos interesses reais dos estudantes.
- Use avaliações como ferramenta pedagógica
Diagnósticos precisos permitem identificar lacunas específicas e planejar intervenções direcionadas. Escolas que utilizam as avaliações de forma estratégica conseguem agir com mais precisão e acompanhar a evolução de cada aluno.
Ensinar a pensar, não apenas a calcular
O desafio do ensino de matemática no Brasil não é simples, mas também não é insolúvel. Os dados mostram a gravidade do problema, mas também apontam caminhos para a transformação.
Quando a escola entender que ensinar Matemática é ensinar a pensar, e não apenas a calcular, os números do aprendizado começarão a mudar. E essa mudança começa com gestores e coordenadores que lideram com intencionalidade, professores que ensinam com significado e estudantes que se sentem capazes de aprender.
O Brasil tem exemplos concretos de escolas que conseguiram reverter indicadores ruins e construir trajetórias de sucesso em matemática. Esses casos mostram que, com planejamento, formação consistente e práticas centradas no estudante, é possível transformar a relação dos jovens com a matemática.
Quer se aprofundar no assunto? Confira o vídeo completo no Canal Radar do Educador:
A Evolucional apoia escolas nessa jornada com avaliações diagnósticas precisas, análises detalhadas de desempenho por habilidade e ferramentas que orientam intervenções pedagógicas baseadas em dados. Transformar o cenário da matemática exige clareza sobre onde estamos e para onde precisamos ir.
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