O Índice de Qualidade do Professor: o que os dados revelam sobre o impacto docente na aprendizagem

57,8% do desempenho dos alunos pode ser explicado pela qualidade dos professores

Você sabe qual é o impacto que a qualidade de um professor tem no aprendizado dos alunos? E mais: como você tem medido a qualidade dos professores da sua escola?

Em abril de 2024, o Instituto Península, em parceria com a FGV, publicou um estudo que deveria estar na mesa de todo gestor educacional brasileiro. O título é direto: “A Qualidade do Professor Brasileiro – Significado, impacto e políticas sistêmicas de aperfeiçoamento da oferta e desempenho docente”.

E esse estudo trouxe algo inédito: a construção do primeiro Índice de Qualidade do Professor do Brasil (IQP). Pela primeira vez, conseguimos medir de forma sistemática e abrangente o impacto da qualidade docente nos resultados educacionais.

E os números são impressionantes. Mas mais do que números, o estudo também mostra um caminho. Ele mapeia onde estamos, identifica nossas fragilidades e aponta políticas concretas para a melhoria da qualidade docente.

Neste artigo, vamos analisar a metodologia desse índice, os cinco eixos que compõem a qualidade docente, os resultados por região e ciclo educacional e, principalmente, entender o que esses dados significam para a prática de gestores, coordenadores e professores.

 

O contexto: qualidade docente é longitudinal, contextual e sistêmica

Antes de entrarmos nos resultados, você precisa entender algo fundamental:
a qualidade do professor é longitudinal, contextual e sistêmica.

  • Longitudinal: se transforma ao longo da carreira
  • Contextual: depende das condições em que o professor trabalha
  • Sistêmica: depende de todo o ecossistema: formação inicial, seleção, condições de trabalho e carreira

No Brasil, os desafios que envolvem a qualidade dos professores são enormes: as desigualdades regionais, os problemas nos cursos de licenciatura e a falta de valorização profissional estão entre eles.

Por isso, o Instituto Península e a FGV criaram um modelo que não olha apenas para o professor de forma individual, mas considera todo o sistema que condiciona sua atuação.

 

Os 5 eixos do IQP

O Índice de Qualidade do Professor é composto por cinco eixos fundamentais. E cada um desses eixos representa uma dimensão essencial da qualidade docente.

 

  1. Ethos dos professores: vocação, engajamento e identidade profissional

Aqui se mede, essencialmente, a motivação dos futuros professores. E para que não haja subjetividade nesse eixo, os dados vêm do Enade, onde estudantes de licenciatura respondem por que querem ser professores e se pretendem atuar na docência como profissão principal.

Percentuais mais altos de estudantes que buscam a docência por vocação e que querem seguir a carreira indicam professores mais motivados e engajados.

 

  1. Qualidade da formação acadêmica inicial

Aqui entram 3 variáveis: 

  • A adequação da formação dos professores à disciplina que ele vai lecionar
  • O percentual de alunos em cursos EAD de licenciatura
  • A nota do Enade dos cursos de formação

A pesquisa mostra que cursos com maior percentual de alunos EAD tendem a ter indicadores de qualidade mais baixos. Isso não significa que a modalidade EAD é ruim. Significa que, da forma como o EAD tem sido ofertado em muitos casos, não se garante a formação prática necessária à carreira docente.

 

  1. Qualidade da formação pedagógica e competências docentes

Aqui se analisa a experiência prática do professor. Ele cumpriu mais do que 400 horas de estágio durante a graduação? Quantos anos de prática ele tem em sala de aula?

A pesquisa considera que professores com mais de 5 anos de experiência em sala de aula, tendem a apresentar melhores resultados.

 

  1. Condições de profissionalização

Esse eixo olha para 4 variáveis: 

  • Existência de plano de carreira e conselho municipal de educação 
  • Índice de esforço docente
  • Prêmio salarial da profissão
  • Regularidade docente

O índice de esforço docente, por exemplo, mede quantas turmas, turnos e escolas o professor precisa atender. Já a regularidade docente se refere à permanência e estabilidade dos professores em uma instituição de ensino.

Professores que trabalham em um único turno, em uma única escola e com turmas de tamanho adequado têm melhores resultados.

 

  1. Resultados de eficácia, efetividade e equidade

Aqui entram variáveis tradicionais como taxas de distorção idade-série, taxas de aprovação e nota do Saeb. Essas variáveis usam dados defasados, de 2017, justamente para capturar o impacto prolongado da qualidade docente ao longo do tempo.

Cada um desses 5 eixos foi transformado em uma escala de 0 a 10. E o Índice de Qualidade Docente (IQP) final é a média aritmética simples desses 5 eixos.

 

A metodologia do índice

O estudo utilizou como fonte de dados diversos bancos públicos disponíveis como o Censo Escolar, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e o Censo do Ensino Superior e Enade.

Algo muito importante a ser considerado: o IQP foi calculado para duas coberturas geográficas: a municipal e a estadual.

  • No nível municipal, o índice considera a rede pública municipal e o Ensino Fundamental
  • No nível estadual, considera a rede pública estadual e o Ensino Médio

Isso permite comparações entre redes e entre ciclos educacionais.

Todas as variáveis foram padronizadas para que valores maiores dessas variáveis representassem uma melhor qualidade docente.

E aqui está um ponto crucial da metodologia: o modelo foi desenhado para que todos os seus componentes possam ser modificados e impactados por políticas públicas. Esse é o princípio que orienta o IQP.

 

Se melhorarmos as estruturas institucionais que condicionam o desempenho docente, os resultados dos professores serão impactados positivamente.

 

Os resultados no impacto da aprendizagem

A qualidade do professor, medida pelo IQP, explica 57,8% do resultado do Ensino Fundamental, isto é, quase 60% do desempenho dos alunos, pode ser explicado pela qualidade docente.

No Ensino Médio, onde os alunos, em sua maioria, já apresentam uma maior autonomia nos estudos, esse número é de 36%.

Os pesquisadores incluíram no modelo outras variáveis para mensurar seus impactos no aprendizado. Ao total foram 39 variáveis de controle adicionadas no Ensino Fundamental e 22 no Ensino Médio como, por exemplo: infraestrutura escolar, número de alunos por turma, nível de escolaridade dos pais, PIB municipal, recursos do Fundeb, existência de internet, biblioteca, quadra de esportes, entre outras.

E mesmo incluindo tudo isso, o poder explicativo do modelo subiu para apenas 65,7% no Ensino Fundamental e 47,5% no Ensino Médio. Ou seja, a qualidade do professor isolada continua sendo, de longe, a variável mais importante.

 

Se você quer melhorar a educação, precisa focar nos professores. Nada tem mais impacto do que a qualidade docente.

 

Os resultados por região: desigualdades profundas

Quando olhamos para o mapa da qualidade docente no Brasil, encontramos desigualdades profundas.

As regiões Sul e Sudeste apresentam os melhores índices, com destaque para municípios de São Paulo e Minas Gerais. As regiões Norte e Nordeste concentram os indicadores mais baixos.

Mas isso não é uma regra absoluta. Alguns municípios do Nordeste, como os do estado de Pernambuco, da Paraíba e alguns do Rio Grande do Norte, apresentam valores intermediários de qualidade docente. Isso mostra que políticas locais fazem diferença.

Quando analisamos os 5 eixos separadamente, temos um panorama ainda mais revelador:

  • Os eixos de ethos dos professores e condições de profissionalização já apresentam sinais positivos, ainda que heterogêneos. Isso significa que há professores motivados e algumas redes estão avançando em planos de carreira 
  • Mas infelizmente, os eixos de formação pedagógica e competências docentes apresentam sinal negativo. E esse é o ponto mais crítico 

A formação inicial e a preparação prática dos professores são os pontos mais frágeis do sistema educacional brasileiro. E é justamente aí que precisamos focar com urgência.

 

Caminhos concretos para a melhoria

O estudo aponta sete direções principais:

 

  1. Melhorar urgentemente a formação inicial dos professores

Isso significa regular melhor os cursos de licenciatura, exigir mais prática supervisionada, criar parcerias entre universidades e redes de ensino.

 

  1. Implementar políticas de indução à entrada na carreira

Professores iniciantes precisam de mentoria, de acompanhamento próximo e de formação específica. E o estágio probatório precisa ser um período formativo, e não apenas burocrático.

 

  1. Criar condições de trabalho adequadas

Jornada concentrada em uma única escola, turmas com número adequado de alunos e tempo para planejamento e formação continuada.

 

  1. Promover comunidades de aprendizagem entre professores

Criar espaços de troca, observação de aulas e planejamento colaborativo.

 

  1. Estabelecer planos de carreira claros

Com progressão baseada em formação e desempenho. E isso envolve garantir remuneração competitiva que atraia e retenha bons profissionais.

 

  1. Usar dados para orientar políticas e práticas

O IQP, por exemplo, é uma ferramenta poderosa para diagnosticar fragilidades e monitorar o impacto das ações.

 

  1. Priorizar equidade

Garantir que as escolas que atendem alunos mais vulneráveis tenham acesso aos melhores professores. Isso pode exigir incentivos específicos, condições diferenciadas de trabalho e a criação de programas de desenvolvimento profissional.

 

O professor é o fator mais determinante

Se há uma mensagem clara nesse estudo é esta: o professor é o fator mais determinante para a aprendizagem dos alunos. Essa constatação precisa se traduzir em políticas públicas sistêmicas que:

  • Valorizem a profissão desde a formação inicial
  • Apoiem o professor nos primeiros anos de carreira
  • Garantam condições adequadas de trabalho
  • Promovam formação continuada de qualidade

O Índice de Qualidade do Professor nos deu, pela primeira vez, uma medida clara e sistemática da qualidade docente no Brasil.

Agora cabe a nós, gestores, coordenadores e também aos formuladores de políticas, usar essas informações para construir um sistema educacional mais justo e mais eficaz para os nossos professores.

Confira o vídeo completo no Canal Radar do Educador.

[VIDEO]

 

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